Uma antiga narrativa sobre um demônio que solta um cavalo, desencadeando uma espiral de violência, serve como ponto de partida para uma profunda reflexão sobre responsabilidade subjetiva. A história, aparentemente simples, lança luz sobre como lidamos com os eventos que nos afetam, uma questão central na psicanálise. A maneira como respondemos aos acontecimentos, e não os próprios eventos em si, é o que verdadeiramente molda nosso destino.
Na trama, o ato inicial do demônio – “eu só soltei o cavalo!” – parece insignificante, mas deflagra uma série de reações extremas. Os personagens, incapazes de suportar a frustração e a perda, reagem impulsivamente, projetando sua dor no outro. Essa incapacidade de lidar com as próprias emoções resulta em uma escalada de violência e destruição.
Freud, em sua teoria das projeções, já alertava para a nossa tendência de atribuir aos outros aquilo que não conseguimos encarar em nós mesmos. Ao invés de reconhecer sentimentos como raiva e inveja, preferimos “expulsá-los” e depositá-los no mundo externo. Essa transferência alivia momentaneamente o conflito interno, mas perpetua a repetição e o sofrimento, como ilustrado na trágica história do cavalo solto.
Nesse ciclo vicioso, ninguém se questiona sobre sua própria participação nos eventos. Cada personagem está convencido de que a culpa reside no outro, impedindo qualquer possibilidade de crescimento e aprendizado. A psicanálise, ao contrário das soluções fáceis, propõe um caminho árduo: o reconhecimento e a aceitação de nossos próprios impulsos e falhas.
Assumir a responsabilidade por nossas escolhas e suas consequências é fundamental para romper o ciclo de destruição. Não se trata de culpa paralisante, mas de uma responsabilidade que nos abre à transformação. É quando deixamos de acusar o outro e começamos a nos questionar que o ciclo de violência pode ser interrompido.
Na clínica psicanalítica, esse momento de reconhecimento é crucial. O paciente deixa de repetir padrões destrutivos e começa a simbolizar, a se apropriar de sua história sem terceirizar a dor. Compreende que, embora não controle os eventos externos, pode transformar sua resposta a eles. A psicanálise, portanto, busca auxiliar o indivíduo a reconhecer, elaborar e transformar seus afetos, permitindo-lhe escrever sua própria história com mais liberdade e responsabilidade.





